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11 de junho de 2012

O governo é o verdadeiro responsável pela evasão escolar no RN

Manchete do jornal sobre evasão escolar
A manchete do jornal O Poti/Diário de Natal deste domingo, dia 10, me chamou muito a atenção: “Evasão e desestímulo são retrato do ensino médio”. Como professora, o tema da educação pública para mim é uma prioridade. Os dados chocantes trazidos pelo jornal são do Censo Escolar divulgados pelo IBGE e mostram que a evasão no RN chega a 19%. Além disso, 56,20% das pessoas com 10 anos ou mais tem apenas o Ensino Fundamental e metade dos jovens com 19 anos disseram não ter concluído essa etapa escolar. Para mim, é revoltante ver a educação pública nesta situação, e mais revoltante ainda foi ler a explicação da secretária estadual de educação, Betânia Ramalho, sobre o fato.

Na matéria, a secretária culpa a greve dos professores de 2011 pelo alto índice de evasão escolar. Uma atitude, inclusive, muito comum em se tratando do governo de Rosalba Ciarlini (DEM). Betânia Ramalho foi enfática ao dizer que a greve de mais de 80 dias do ano passado foi o primeiro fator prejudicial. “Ora, se a escola não é tão atrativa, agradável, interessante nem motivadora, tudo que se mexe é prejudicial, imagine uma paralisação de quase três meses?”, diz a secretária em um trecho da matéria. Em 2011, durante uma audiência pública na Assembleia Legislativa, falei do absurdo que era uma secretária minimizar os problemas da educação e atribuí-los a “imediatismos”, apresentando “projetos de longo prazo” e solicitando “paciência”, alegando para isso o fato de estar no governo há pouco tempo. Treze meses depois e diante de um cenário inalterado, me sinto desafiada a voltar a responder às incongruências do governo.

Em primeiro lugar, quero repetir que a greve dos trabalhadores é apenas uma pequena parte da bomba relógio que a é educação pública neste país. Em segundo lugar, repito que a greve é essencial para que a sociedade tome conhecimento do sistema caótico a que nós e nossos alunos estamos submetidos diariamente. Se não há greve, tudo parece estar em ordem e as pessoas acreditam na farsa apresentada em propagandas de TV. Em terceiro lugar, quero dizer que não admito que governo algum desmoralize a nossa luta em defesa da educação pública, utilizando-a como justificativa para a sua própria incompetência, ingerência e indiferença em relação aos problemas denunciados em nossas greves, mesmo que o fizesse de forma subliminar.

A secretária continua achando secundário falar sobre os problemas “que todos já conhecem” e, nesse exercício de silêncio, parece acabar se convencendo de que eles realmente não existem. As escolas públicas do estado continuam com os mesmos problemas de sempre. Nada mudou, nem com os governos passados nem com o atual. Na verdade, a evasão é alimentada todos os dias pelo descaso histórico deles.

Hoje, há muitas escolas no RN em que os alunos do Ensino Médio tem apenas dois ou três dias de aula por semana. Isso porque as direções se desdobram para contornar o caos e fazem rodízio de turma por falta de professor. Se fizermos um cálculo rápido, vamos perceber que essas pessoas assistem a, no máximo, 144 dias de aula por ano. Uma vergonha! E agora eu pergunto: que estudante pode se sentir estimulado a freqüentar uma escola em que não tem professor de Português, de Química ou de Matemática, estando às vésperas do vestibular? E se quando esse professor chegar, as aulas forem suspensas por um problema na bomba d’água ou por um apagão causado pela rede elétrica velha perigosa? Quantos alunos vão resistir a essas e tantas outras provas de paciência?

O governo, através de Betânia Ramalho, escolheu a greve como um bode expiatório para esconder a própria responsabilidade com o abandono da educação pública. A greve dos professores durou mais de 80 dias por culpa do governo do estado, que foi intransigente com nossas reivindicações e insensível com os alunos, como continua sendo. E insistem em tamanho cinismo. Quero ainda aproveitar para dizer porque as pessoas desistem de estudar.

As pessoas desistem de estudar porque não estão com a vida ganha e não tem tempo a perder “brincando de ir à escola”. Se a escola não conta com a sua estrutura básica: professores, carteiras, água, luz, elas tem mais o que fazer e vão procurar um emprego. As pessoas desistem de estudar porque vêem os seus professores, cuja dura rotina elas conhecem bem, fazerem uma greve de 81 dias, para no final receberem um salário que elas podem receber como um profissional autônomo, mesmo que não tenha concluído o Ensino Fundamental. As pessoas desistem de estudar porque o governo do estado faz um boicote ao ensino público. Depois, cobra que sejamos os redentores e redentoras do país. Com um quadro caótico desses na educação, dizer que a evasão escolar é culpa da greve dos professores é mais do que uma mentira, chega a ser uma provocação.

25 de fevereiro de 2012

Deu na Imprensa: Cuscuz Molhado

/ PONTA NEGRA / SOB CHUVA, PROFESSORES COLOCAM TROÇA CARNAVALESCA NA RUA PARA PROTESTAR CONTRA PROBLEMAS DA EDUCAÇÃO

LUAN XAVIER
DO NOVO JORNAL

Professora Amanda Gurgel distribuiu cuscuz aos foliões.
PARA A MAIORIA das pessoas, o carnaval é uma época em que os problemas são deixados de lado para que o corpo e a mente fi quem à mercê da diversão. Os professores da rede pública de educação, porém, resolveram mudar essa receita, aliando a folia às reivindicações da classe. A maneira que eles encontraram para isso foi distribuir cuscuz no meio da rua com o bloco Cuscuz Alegado, encabeçado pela professora Amanda Gurgel, que tornou-se símbolo nacional na luta pelos direitos dos educadores.

Sábado de carnaval. Num dos pólos carnavalescos espalhados pela cidade, a chamada Praça da Vilarte, em Ponta Negra, os integrantes do bloco Cuscuz Alegado aproveitaram a concentração do tradicional “Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens” para, mesmo debaixo de uma forte chuva, mostrar aos demais foliões o motivo da criação da mais nova troça carnavalesca da cidade.

“O Cuscuz Alegado é um bloco organizado por professores da rede pública de ensino e foi criado para mostrar nossas reivindicações com muita irreverência e animação”, explicou a professora Aparecida Rêgo. Vestida de amarelo, “a cor do cuscuz” e do abadá improvisado do bloco, a educadora conta que o nome saiu do discurso da colega Amanda Gurgel na Assembleia Legislativa do RN, que ganhou repercussão nacional. Naquela ocasião, Amanda reclamou da atuação da promotora Carla Amico, que recomendou a proibição do consumo da merenda escolar pelos professores em seu horário de trabalho.

Pré-candidata a vereadora de Natal, Amanda Gurgel foi a última a chegar à concentração do bloco. Com ela, duas enormes panelas de cuscuz, rapidamente transformadas em dezenas de pratinhos, para felicidade geral dos presentes. Sem perder o bom humor, tampouco o discurso militante, ela disse que o cuscuz foi uma maneira irreverente de chamar a atenção das pessoas, mas que o objetivo era realçar os problemas enfrentados dia após dias pelos profissionais da educação.

“Essa foi a forma que a gente encontrou de protestar contra todos os problemas da nossa educação”, comentou a educadora. “É um bloco de protesto e de irreverência, mostrando que nem no carnaval esquecemos da nossa luta”, ressalta Amanda.

Além do cuscuz, bem mais molhado após a chuva que caiu sobre Natal sábado, faixas, cartazes, camisas e personagens. Um deles, um professor, foi preso por portar 150g de uma sustância proibida: “Me pegaram com um cuscuz”, diz. A ideia chamou a atenção de quem passava, inclusive de alguns professores que não sabiam da existência do bloco.

“Vou até fazer uma foto aqui porque eu também sou professor e compartilho da luta do pessoal”, disse um turista. O estandarte exibia a data de criação do bloco – 1500. A explicação vem na faixa de abertura do cortejo, que saiu da Praça da Vilarte até o Ponto Sete, às margens da Avenida Engenheiro Roberto Freire. “Micarla, Rosalba, Dilma: Desde 1500 nenhum governo prioriza a educação”.

FOTOS: VANESSA SIMÕES / NJ
Quando o cortejo saiu, puxando uma série de outros blocos, a atenção das pessoas era voltada ao movimento. “Olha só, é um bloco de protesto. Legal”, disse uma senhora que assistia, animada, ao desfile. À frente de Amanda Gurgel e seus companheiros, quem dava o tom no bloco eram os jovens do Batuque da Resistência, um projeto social coordenado pelo professor Marcus Vinícius há três anos, e que conta com o envolvimento de crianças e adolescentes da Escola Municipal Josa Botelho, de Ponta Negra.

Eles, que conhecem bem o cotidiano dos professores – e são diretamente afetados com seu rendimento dentro de sala – também provaram – e aprovaram – do cuscuz servido no bloco. Amanda aproveitou, já que não pode comer na escola. “Essa proibição, na verdade é por uma lei federal, que diz que a merenda escolar deve ser consumida pelos alunos, mas entendemos que isso deve ser readequado; afinal, a escola não é feita apenas pelos alunos”, comentou.

Fonte: Novo Jornal - 22/02/2012

6 de dezembro de 2011

Deu no Opinião Socialista: “A doença da educação é a precariedade”

Reportagem do Opinião Socialista acompanhou o dia da professora Amanda Gurgel, que ficou conhecida em todo país após um vídeo no Youtube no qual critica governantes pela situação de caos da Educação. Confira. (Por João Paulo da Silva, de Natal/RN)

A rotina da professora que calou os deputados do Rio Grande do Norte, ao denunciar o caos da educação pública no estado, não é diferente da dos demais educadores de todo o país. Foi essa semelhança que fez milhões de pessoas se identificarem com seu discurso. O dia a dia cansativo e estressante, com duas ou três jornadas em escolas diferentes, salários baixos e péssimas condições de trabalho, é uma regra no Brasil. Não seria exagero dizer que todos os professores têm vidas parecidas. Assim como para a maioria dos trabalhadores, o dia da professora Amanda Gurgel também começa muito cedo, quando o sol ainda nem deu as caras direito. “Eu acordo às 5 horas da manhã e preciso me organizar rapidamente para poder pegar o primeiro ônibus, que passa mais ou menos dez minutos antes das seis. Eu tenho de ser rápida. É tomar um banho rápido e organizar o meu material.”, conta.

Amanda mora em Nova Parnamirim, zona sul da região metropolitana de Natal, e trabalha em duas escolas do outro lado da cidade. A correria de todos os dias retira da professora até mesmo o direito a um café da manhã tranquilo. “São três ônibus que eu pego para chegar às escolas. Eu até poderia pegar dois, mas como o transporte público em Natal é muito precário eu preciso pegar mais um para chegar no horário.”.

O cansaço e o estresse já começam nas primeiras horas da manhã, ainda dentro do transporte. A viagem é longa e Amanda se esforça para manter o mesmo ânimo de quando acordou. “Eu levo em média uma hora e meia para chegar até a escola. Já chego na escola cansada”, diz a professora.

Dupla jornada escolar
A primeira jornada de trabalho é dada na Escola Municipal Amadeu Araújo, no bairro de Nova Natal, zona norte da capital potiguar. Durante toda a manhã, Amanda é responsável pelas atividades escolares no laboratório de informática, onde muitas vezes a internet se torna um mistério para os alunos, já que as condições são precárias. “Aparentemente pode parecer uma tarefa simples. Mas não é. Todas as turmas da escola passam por mim. São doze turmas do ensino fundamental ao todo.”, diz.

Mas o acúmulo de trabalho na primeira escola é só o começo. À tarde, a professora ensina Língua Portuguesa na Escola Estadual Myriam Coeli, no mesmo bairro da primeira, onde encara mais seis turmas do segundo e terceiro anos do Ensino Médio. E é dentro da sala de aula que a irresponsabilidade dos governos com a educação pública vai ganhando formas mais definidas. Os alunos da professora Amanda não tiveram professor de Português durante todo o ano passado. “É muito complicado. Eu tento me adaptar. Tenho que passar os conteúdos da série em que eles estão matriculados, sem deixar de falar daqueles assuntos que eles não viram antes. É muito difícil. Não é simples. É bastante sacrificado.”, conta ela, com uma mistura de tristeza e revolta.

A revolta aumenta quando chega a hora da merenda escolar. Há três meses, o Ministério Público Federal do Rio Grande do Norte e a Justiça do Estado proibiram os professores de compartilhar a alimentação do aluno, sob pena de responderem administrativamente e criminalmente pelo ato. “Geralmente, o meu café da manhã é a merenda da escola. Querem passar a imagem de que os professores são os vilões da história só porque se alimentam de uma parte da merenda dos alunos. Mas o que acontece, na verdade, é que temos uma rotina bastante cansativa, corrida, e não temos tempo nem condições para fazermos as refeições adequadas.”, explica.

A professora culpa os governos por essa situação humilhante, sobretudo o governo federal e seu Programa Nacional de Alimentação Escolar, o PNAE. “Não temos dinheiro suficiente para comer o dia todo e todos os dias fora da escola, já que a gente trabalha o dia inteiro e nossos salários são muito baixos. A gente não é super-herói, somos de carne e osso e precisamos nos alimentar. Não tenho nenhum constrangimento de falar sobre isso. Se existe um erro nisso tudo, ele não é nosso. É do governo federal e do PNAE, que não vê que a escola é formada por alunos, pais, professores e funcionários. Portanto, toda a comunidade escolar deveria ter acesso à merenda.”, desabafa Amanda.

“Não tínhamos carteiras”
A humilhação dos professores e o descaso com a educação não tem limites. Na sala de aula, Amanda enfrenta problemas básicos de infraestrutura, que chegam a beirar o absurdo. Uma realidade que se repete não só por todo o Rio Grande do Norte, mas no Brasil inteiro. Salas quentes e abafadas, com lâmpadas queimadas e instalação elétrica à mostra. Tudo isso por falta de investimento. “O dinheiro enviado pelo governo é pouco. É uma angústia você precisar trabalhar com um determinado material e a escola não ter esse material. Em geral, a situação é precária. Na minha escola, a gente passou quatro anos solicitando carteiras à Secretaria Estadual de Educação. No ano passado, fizemos um ato público, com alunos e professores, todo mundo exigindo carteiras. Imagine isso. Não tínhamos carteiras.”, diz a professora. “As carteiras só foram aparecer depois que aquele meu vídeo ganhou repercussão”, completa.

Amanda diz que qualquer pessoa sabe que todos os materiais se desgastam com o tempo. “Se na nossa casa uma cadeira se desgasta, imagine numa escola, com três turnos funcionando. É natural que tenhamos carteiras com defeito porque já foram usadas por vários anos e não servem mais. Mas o governo quer que as carteiras durem o resto da vida. Parece que a ideia é que todo material da escola precisa durar para sempre.”, critica. Os alunos também reclamam e Amanda os incentiva a reivindicarem uma educação melhor. “Eu tenho conversado bastante com os alunos sobre isso. E depois do vídeo eles se sentiram mais empolgados com essa questão de reivindicar melhores condições e de reclamar sobre a situação da escola.”.

A falta de professores para diversas disciplinas é outro grave problema que atormenta alunos e superexplora os profissionais que estão na ativa. A professora se preocupa com a questão e reconhece que parte das extensas jornadas de trabalho se explica pela insuficiência de profissionais. Mas não só por isso. “Existe carência de tudo na educação. Faltam professores, funcionários, vagas e escolas. E isso tem a ver diretamente com o novo PNE do governo Dilma, que está tramitando no Congresso. O plano utiliza a palavra otimizar, que é bem pomposa, para maquiar os problemas da educação. O plano diz que é preciso otimizar o espaço, otimizar os recursos. Mas o que precisamos mesmo é de mais vagas, mais salas de aula, mais professores, mais escolas. Enfim, precisamos é de mais investimentos, o que o novo PNE não prevê.”, aponta.

Por causa da quantidade excessiva de turmas e alunos, uma média de 40 por sala, Amanda admite que é impossível acompanhar todos com a qualidade que merecem, por mais que se esforce. “O processo de aprendizado pressupõe um acompanhamento individual, um acompanhamento dos avanços dos alunos. Isso o professor não consegue fazer. É muito difícil associar os problemas encontrados nas avaliações com o rosto de cada aluno. Não há como dar acompanhamento exclusivo a um aluno enquanto os outros 39 estão esperando atenção. Realmente não há condições de se fazer um trabalho decente assim.”, lamenta.

"Indústria da ignorância”
Foi com grande revolta que a professora Amanda recebeu, no início de outubro, a notícia de que a governadora Rosalba Ciarlini (DEM) pretende cortar R$ 96,2 milhões da pasta da educação no Rio Grande do Norte. Some-se a isso o já gigantesco corte de R$ 3,1 bilhões da presidente Dilma, e está traçado o futuro da educação pública nos próximos anos. Para Amanda, além de servirem para aumentar o pagamento dos juros da dívida pública aos banqueiros, os cortes do governo na educação têm ainda outra função. “Os cortes na educação servem para cumprir com esse projeto do governo de seguir com a indústria da ignorância.”, argumenta.

Para combater essa realidade, é que Amanda tem feito muitos esforços para divulgar a Campanha dos 10% do PIB Já para a Educação Pública. Ela defende que este é um projeto para ser abraçado por todos os trabalhadores. “O governo tem tratado os 10% do PIB para educação como se já fosse um absurdo de investimento. Na verdade, isso é o mínimo necessário para que a gente dê o primeiro passo na direção de uma educação ideal. Eu vejo essa nossa campanha como um projeto daqueles que tem compromisso com a educação. De todos aqueles que constroem o país. Operários, médicos, professores, todos. Todos os trabalhadores deveriam se engajar nessa campanha porque reflete diretamente nas nossas vidas.”, convoca.

Nos intervalos das aulas, na sala dos professores, Amanda aproveita os rápidos momentos livres do trabalho para conversar com os colegas de profissão. Os assuntos são variados. “Felizmente, tenho uma relação muito boa com meus colegas de trabalho. A gente conversa sobre tudo. Desde as coisas mais amenas, como o que passou na televisão ou uma matéria boba que saiu numa revista, até os problemas graves da educação. Todos são indignados com os governos. Não só os atuais, mas também os que já passaram. Há ainda a total descrença de que esse sistema possa funcionar. Tenho muitos colegas que votam nulo, que já desistiram.”, revela.

Mas muitas vezes o assunto do dia envolve uma questão bastante delicada para os professores. As condições precárias da educação, com baixos salários e longas jornadas, têm deixado muitos educadores doentes. Só no estado da professora Amanda são mais de 600 professores licenciados por problemas de saúde. “Teve um professor que sofreu um derrame em sala de aula depois de passar por uma contrariedade com um aluno. Ele vinha num processo de estresse muito grande, a gente percebia que era uma bomba relógio. E foi o que aconteceu. Ele explodiu e teve um derrame. Esse professor tinha procurado a junta médica para pedir uma licença. O pedido não foi concedido, mas depois ele teve que, obrigatoriamente, ter a licença por causa da doença. Ele ficou com sequelas. Mas o estado não está nem aí para isso. É por causa desse descaso que a gente adoece. É por isso que a gente morre.”, desabafa.

Para os alunos, o professor é um anti-exemplo
Em condições de trabalho tão deploráveis, o sentimento de frustração muitas vezes é inevitável. Assim como muitos outros professores pelo país, Amanda também já viveu situações, no mínimo, constrangedoras em sala de aula e que a fizeram repensar o papel do professor atualmente nas escolas públicas. “A forma como os governantes encaram a educação faz com que nós, professores, cumpramos um papel contrário ao que deveríamos cumprir. Hoje o professor é um anti-exemplo para os alunos. O aluno não quer ser professor. O aluno não quer morrer de estudar e trabalhar para ter de pegar três ônibus até chegar ao local de trabalho. Não quer morrer de estudar e trabalhar para vir o Ministério Público e dizer que você não pode comer essa merenda. Os alunos percebem que nossa atividade é muito humilhante, muito degradante. Eu ouvi isso de um aluno de dez anos.”, afirma.

Entretanto, nem só de angústias é formada a realidade diária da professora Amanda. Na luta do dia a dia, ela ainda consegue construir uma boa relação com os alunos, mesmo mantendo contato com centenas deles cotidianamente. “Uma vez, estávamos em frente à Prefeitura de Natal, durante um ato contra o aumento da passagem de ônibus, professores e estudantes participando do protesto. E eu encontrei uma ex-aluna minha, que era criancinha quando tinha sido minha aluna. Nos reconhecemos na hora. Foi emocionante encontrá-la ali, lutando junto com os outros.”.

Amanda revela preocupação com uma jornada tão cansativa de trabalho. Não bastasse o esgotamento físico, há também a inquietação com a preparação e a qualidade das aulas. “Eu me sinto muito angustiada com isso porque tenho plena consciência de que se eu tivesse menos turmas e uma jornada menor meu trabalho renderia muito mais. Eu seria uma professora muito melhor do que eu sou.”, admite.

Mas Amanda não se deixa abater. Mesmo com o dia lotado, a professora potiguar encontra tempo para sua atividade de militante. Para ela, não é possível separar a vida de trabalhadora da vida política. “Acho que ser professora ou professor é tentar contribuir para o desenvolvimento do país, da educação. Eu ainda acredito nisso. Ser professor é saber que as transformações que o país precisa não vão acontecer apenas a partir da minha sala de aula. Para mim, ser professora é, acima de tudo, ser uma militante da causa da educação. Ser uma lutadora. Uma pessoa que acredita na luta coletiva. Nada é individual. Acredito numa luta que seja feita por todos”.

Fonte: Jornal Opinião Socialista - De 20 de outubro a 16 de novembro

5 de dezembro de 2011

Deu na Imprensa: Entrevista - Pré-candidata Amanda Gurgel

Foto: Ana Amaral/DN/D.A Press
Se depender da professora Amanda Gurgel (PSTU), o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados deixará a tradição de participar de eleições somente para competir. Após ganhar grande visibilidade com as críticas ao sistema educacional brasileiro, a professora acredita que está na hora de o partido chegar à Câmara Municipal de Natal (CMN). Pré-candidata a vereadora, Amanda disse, em entrevista a O Poti/Diário de Natal, que estima a meta de 17 mil votos para conquistar a vaga no legislativo municipal. Ela citou que, apesar de o partido ir em busca de um mandato eletivo pra valer pela primeira vez em Natal, não abandonou os seus princípios. "Não vamos vender a alma para conquistar o mandato", declarou. Durante a entrevista, Amanda comentou a repercussão do seu vídeo no Youtube, avaliou o legislativo brasileiro, criticou os atuais vereadores e adiantou como será sua campanha.

Por que a decisão de entrar na política partidária?
Eu faço parte da política partidária há algum tempo, antes mesmo do vídeo em que apareço criticando a situação da educação. Acontece que, como as pessoas não me conheciam, não sabiam informações sobre minha vida pessoal e política. Mas faço parte do PSTU há um ano. Entrei no partido antes do episódio do vídeo.

Por que a senhora decidiu se candidatar a vereadora?
Essa foi uma decisão coletiva. Não foi minha. Foi uma observação do partido como um todo. A partir da repercussão que o vídeo sobre a educação teve, as pessoas se sentiram representadas por mim. Muitas pessoas me perguntaram sobre a candidatura, então o partido avaliou que isso seria positivo. Essa candidatura será uma forma de aproveitar a oportunidade para ter na Câmara Municipal de Natal uma representação popular com viés socialista, para usarmos esse novo ponto de diálogo para a população.

Historicamente, os membros do PSTU destacam que participam das eleições, por eles ditas burguesas, para divulgar suas ideias. Agora, o partido vai em busca de conquistar verdadeiramente uma cadeira na Câmara. A estratégia mudou?
Nós não mudamos o caráter da nossa participação na política partidária e nas eleições burguesas. Não mudamos nossa percepção política. A nossa prioridade nunca é eleger nossos candidatos. É dialogar com a população e aproveitar o espaço na mídia para isso. Essa continua sendo nossa prioridade. A diferença é que agora há uma mobilização nas bases dos trabalhadores para que isso se concretize. Há uma mobilização para que uma candidatura do PSTU realmente chegue à Câmara Municipal de Natal. Nós continuamos com os mesmos objetivos, ideais e princípios. O que mudou foi a conjuntura e o modo como as pessoas estão vendo essa candidatura do PSTU.

A mídia gratuita que a senhora ganhou com a repercussão do vídeo publicado no Youtube, inclusive nacionalmente, impulsiona essa candidatura?
Com certeza. O fato é que essa mídia espontânea que surgiu tanto ajudou na divulgação do partido e do nosso programa, como auxilia numa possível eleição. A gente pretende se valer desse recurso que surgiu espontaneamente. Nós não investimos em candidaturas. Não temos recursos. Nos recusamos a receber dinheiro de empresários e de bancos. O apoio que já estamos recebendo e vamos receber é dos trabalhadores. É a eles que vamos dever nossas explicações, caso haja realmente a eleição. Serão esses trabalhadores que construirão o mandato da professora Amanda Gurgel e do PSTU.

A senhora pretende se valer das mídias sociais durante a campanha, tendo em vista que elas foram responsáveis pela sua grande visibilidade?
Os mais jovens do partido já haviam percebido o poder das mídias sociais e já usavam. A gente percebeu que as redes sociais têm grande força. Então, obviamente nós vamos utilizar. É uma ferramenta muito importante.

A senhora tem medo de decepcionar os seguidores que encamparam seu discurso de melhorias para a educação, com a entrada na política para disputar um cargo eletivo?
Estamos falando como se eu estivesse eleita, mas é um passo ainda muito longo. Precisamos de 17 mil votos. É muita coisa. A gente ainda não sabe se vai ter coligação. Isso ainda não foi discutido.

Como a senhora pretende enfrentar essa estrutura viciada do poder legislativo?
Nós não acreditamos que a transformação social possa acontecer dentro dessas estruturas que hoje existem, com poderes executivo, legislativo e judiciário. Nós acreditamos que elas só podem acontecer a partir das mobilizações das massas, com as pessoas indo para as ruas defender seus direitos. Então, eu não tenho medo de decepcionar. Não tenho medo de não conseguir aprovar um projeto meu que atenda aos interesses da classe trabalhadora. Não será um mandato meu, nem do PSTU. Será um mandato popular. As pessoas estarão lá para ver minhas intenções. Mostrarei minhas posições e a dos vereadores que votarão contra. Não vamos transformar a cidade nem a educação por meio disso. Eu sou uma pessoa apenas. Eu serei os olhos dentro da Câmara. Não temos a perspectiva de transformar. Sabemos das limitações do espaço legislativo, que faz parte da estrutura burguesa da sociedade e não sou eu que vou mudar.

Então, a senhora pretende usar o espaço no legislativo municipal para divulgar suas ideias e mostrar o pensamento do PSTU sobre os temas de interesse da sociedade?
E também para que as pessoas tenham um espaço. Vou pavimentar o acesso do povo à Câmara. As pessoas hoje não se sentem à vontade de assistir uma sessão. A ideia é termos a vigilância popular sobre o legislativo.

Qual é a imagem que a senhora tem hoje do legislativo brasileiro?
Mais especificamente em Natal, a imagem do legislativo é de submissão. Recentemente, foi feita uma pesquisa em que quase 90% da população disse desaprovar a prefeita. Nossa Câmara hoje compactua e referenda essa prefeita, que tem esse grau de rejeição. Então, obviamente, não representa os trabalhadores. Isso está visto. Não precisa ser cientista político para entender. Além disso, Natal é a segunda capital em índice de analfabetismo, só perdendo para Maceió. Não temos sequer um vereador que levante a bandeira da educação. Como a gente aceita ser a segunda capital com maior índice de analfabetismo? Nós somos uma capital que não tem remédios nos postos de saúde, o lixo domina as ruas e os vereadores não dizem nada. Vivem num universo paralelo. A imagem que eu tenho é essa.

A senhora acha que é proposital ou falta de atenção?
Acho que é descaso mesmo. Os vereadores estão pouco se importando com os eleitores. Estão se lixando para a população.

A senhora tem consciência de que o poder do legislativo não influi diretamente nessas ações do Executivo?
Alguns candidatos e vereadores honestos que são candidatos pensam que podem transformar a sociedade nessa estrutura. Para mim, é muito claro que a gente não pode. Agora uma coisa é você se aliar e estar comprometido com essa estrutura e outra é você defender os interesses da população. Quem aceita financiamento de empresas de ônibus e participa do partido da prefeita está atendendo aos interesses deles. Eu não aceito esse financiamento e vou mobilizar a sociedade e os vereadores a votar contra os projetos que atendem os interesses dos empresários, como aumento do preço da passagem de ônibus sem melhoria da qualidade do transporte.

De uma forma geral, qual a avaliação da senhora sobre o legislativo brasileiro?
É isso. É um legislativo distante. Não está em consonância com os anseios da classe trabalhadora. Está comprometido com aqueles que financiam suas campanhas. Esse é o meu diagnóstico.

A senhora não tem medo de se contaminar, eleita vereadora, com as práticas políticas que existem no sistema atual?
Não. Não tenho menor receio de que isso aconteça. Meus princípios são extremamente sólidos. Tenho toda uma jornada que começou no movimento estudantil da UFRN. Tenho uma formação política forte. Quase aos 30 anos de idade, decidi entrar no PSTU. Não foi por acaso. Decidi ingressar no partido que sintetiza meus princípios e aquilo emque eu acredito. Não mudaria isso por causa de um mandato ou por causa de dinheiro. O programa do meu partido é sólido e seguro. É defendido diariamente por pessoas que acreditam naquilo. O programa do PSTU, apesar de pouco conhecido, é defendido diariamente. O meu partido não permitiria isso.

De que forma a senhora fará sua campanha?
Não pretendo fazer uma campanha artificial, de chegar nos lugares onde não haja a menos inserção dos militantes ou minha. O PSTU tem um trabalho sólido. Temos um trabalho na educação em Nova Natal que se espalha pelo bairro como um todo. Vamos fazer a campanha nos espaços onde o partido tem inserção e os militantes atuam. Pretendo passar nas escolas, visitar os bairros onde temos apoios. É muita gente apoiando nossa candidatura. Onde tivermos apoiadores, iremos, como é o caso de um apoiador que já se disponibilizou a abrir as portas no Gramoré. Então é isso.

A senhora fará campanha nos bairros burgueses?
É porque esse conceito de bairro burguês é meio ambíguo. Algumas pessoas acreditam que professor universitário é burguês. Para mim, são trabalhadores. Eles moram em alguns bairros ditos privilegiados. Vários já manifestaram apoio a essa candidatura. São apoios bem-vindos. Agora, os grandes empresários, que representam a própria burguesia, não têm interesse de votar numa trabalhadora como eu. Então, obviamente, que não vou gastar minha energia fazendo um trabalho com eles. Vou trabalhar com os que se identificam com o meu discurso, com o que eu defendo. Existem muitas pessoas nos setores médios, como médicos e dentistas, que me encontram nas ruas e dão apoio. Não sei nem quais são os bairros considerados burgueses.

Vocês trabalham com a perspectiva de 17 mil votos para conseguir uma cadeira na Câmara. A senhora não acha que chegou a hora de o partido mudar sua estratégia eleitoral e formar coligações para atingir essa marca ou até um número maior?
Não é que tenha chegada a hora de o PSTU fazer isso. Temos uma organização política de criar frentes de esquerda. Já fizemos coligações com Psol, PCB, PCO e outros partidos de esquerda. Não vamos nos negar a isso se for o caso de, na atual conjuntura, é melhor para o partido sair com essa frente. Mas isso não está definido. E se for, o objetivo da frente não será jamais garantir a eleição. Isso será uma consequência, caso consigamos. O diferencial agora é que tivemos essa mídia espontânea. Mas não mudaremos nossa conduta política por causa da eleição. Se conquistarmos o mandato, isso será de extrema utilidade para a população. A avaliação que temos é que os vereadores não representam o povo. O mandato só vai acontecer se as pessoas abraçarem essa causa e se prontificarem a isso. Não vamos vender a alma para chegar lá.

Existe uma outra frente de esquerda, formada por PT, PDT, PSB e PCdoB, com até candidaturas competitivas para a prefeitura e nominatas fortes para a Câmara. Existe a possibilidade de o PSTU futuramente se alinhar a esses partidos?
Não. Não há essa possibilidade. A avaliação que temos é que o PT rumou por um outro caminho. O PT precisou fazer alianças com o PMDB, que compõe o governo federal, aceitou dinheiro de empresários e banqueiros, entrando para esses partidos que atendem os interesses dos empresários e não do povo.

Para a senhora, então o PT hoje não é um partido de esquerda?
Esse conceito é complexo. Mas nós entendemos que hoje o PT rompeu com os princípios de defesa dos trabalhadores, do proletariado, que eram apresentados anteriormente.

Que projeto a senhora pretende apresentar como vereadora, na sua área de atuação mais especificamente?
Não temos ainda projetos. Todos, a partir da candidatura, serão construídos coletivamente. Em dezembro, faremos o lançamento da candidatura e vamos convidar massivamente as pessoas que simpatizam com a candidatura para que elas participem de seminários e reuniões para discutir isso. Tudo será feito de forma extremamente democrática e coletiva. Eu, particularmente, defendo e todos na escola acham que seria ótimo. Em nível federal existe dentro da lei do piso que um terço do nosso tempo de trabalho seja dedicado ao planejamento e estudo. Acho pouco. Acho que deveríamos ter metade da carga horária voltada para isso. É um exemplo do que poderíamos debater para originar um projeto. Isso seria muito difícil, mesmo porque temos um déficit enorme de professores. A secretaria não demonstra interesse em realizar novo concurso. A demanda é muito grande. A educação está caótica. A ideia é que a gente pegue esses problemas para debater. Sinto-me preparada para debater principalmente esse tema.

3 de dezembro de 2011

Deu na Imprensa: Professora que virou fenômeno na Internet será candidata a vereadora em Natal

A professora Amanda Gurgel, que ganhou fama no país depois de um discurso inflamado durante audiência pública no mês de março, na Assembleia Legislativa, onde era discutida a situação dos professores da rede pública, será candidata a veredora em Natal. O PSTU, partido a que a professora é filiada, confirmou que a professora está na nominata de pré-candidatos da legenda para disputar vagas na Câmara Municipal do Natal.

De acordo com a direção do PSTU, a professora é "a melhor alternativa política para defender uma educação pública, gratuita e de qualidade na Câmara Municipal". A professora, que já disputou eleições dentro do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Rio Grande do Norte (Sinte/RN), afirma que quer dar uma alternativa "revolucionária e socialista" à população.

"Queremos oferecer para os trabalhadores e a população pobre de Natal uma verdadeira alternativa socialista e revolucionária para a educação de nossa cidade, capaz de enfrentar o descaso que há décadas aflige nossas escolas em função dos ataques desses partidos tradicionais.", disse a professora

A professora de Português Amanda Gurgel ganhou notoriedade quando, num vídeo, gravado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, reclamava sobre a situação atual dos professores potiguares. O vídeo, divulgado na internet, foi visto por milhares de pessoas e Amanda foi convidada para participar de programas nacionais de televisão.

À época, a professora não estava ensinando. Devido a um problema de saúde que ela prefere não revelar qual era, ficou um ano longe das salas de aula. No período de readaptação, trabalhou na biblioteca da Escola Estadual Myriam Coeli. De volta às salas de aula desde julho, quando foi encerrada a maior greve da categoria no estado, Amanda Gurgel retomou sua rotina.

Fonte: Tribuna do Norte - 16//11/2011

20 de outubro de 2011

Deu na Imprensa: Entrevista Inclusiva – Amanda Gurgel

Durante muitos dias do mês de maio, o grande tema comentado e compartilhado pela internet através das redes sociais foi educação. O hit do momento foi o vídeo de Amanda Gurgel, professora do Rio Grande do Norte que botou a boca no mundo durante Audiência Pública na Câmara dos Deputados com o tema “O Cenário da Educação Pública do Rio Grande do Norte”. Sua fala, foi ao ar ao vivo na TV Câmara do RN, além de filmada e colocada no YouTube. Com milhões de visualizações, arrancou aplausos da plateia e dos internautas ao manifestar falas corajosas como “Me preocupa a fala da maioria aqui, quando dizem ‘não vamos falar da situação precária da educação pública porque isso todos já sabem’. Estamos banalizando isso? Estão me colocando com giz e um quadro numa sala lotada me dizendo para ser a salvadora do país”.

Mesmo indo do YouTube para o Domingão do Faustão, Amanda não mudou em nada seu discurso afiado e nem seus ideais. A professora e militante do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), que continua comendo cuscuz alegado e ganhando 930 reais, fala à Vírus Planetário sobre a situação da educação no Brasil e a repercussão que o seu caso teve.

Recentemente, Amanda recusou o prêmio PNBE. Em seu blog a professora afirmou: “Minha luta é outra. Espero que a carta sirva para debatermos a privatização do ensino e o papel de organizações que se dizem ‘amigas da escola’.(…)Embora exista desde 1994 esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora comprometida com o movimento reivindicativo de sua categoria. Evidenciando suas prioridades, esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Itaú, Embraer, Natura, McDonald’s e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva.(…)”

Entrevista por Caio Amorim, Mariana Gomes e Maria Luiza Baldez. Fotos por Caio Amorim. Publicada na 11ª edição (agosto/setembro) da revista Vírus Planetário.

Fale um pouco sobre sua trajetória, em que escola você da aula?

Minha militância começou no movimento estudantil na universidade. Eu nasci no Rio Grande do Norte e morei na Bahia por 19 anos. Cheguei a cursar um ano do curso de Letras na Universidade Estadual de Feira de Santana, na Bahia. E lá, o movimento estudantil era muito combativo e atuante, mas eu não podia militar porque, além de estudar, eu trabalhava, e não tinha tempo. Quando me mudei para o RN, fiz uma tentativa de transferência, porque a universidade estava em greve. E eu já tinha essa consciência da importância da greve, apesar de estar sendo prejudicada. Então fiz vestibular para a UFRN, e lá não tinha Centro Acadêmico. Então comecei a me aproximar do DCE [Diretório Central dos Estudantes] para mobilizar as pessoas e construir o CA. Quando entrei na Rede Municipal de Educação de Natal, em 2006, logo de cara participei de uma greve. E fiquei chocada com a forma como a direção conduzia a greve. Eu não entendia a possibilidade de uma direção de sindicato ser aliada ao governo. A proposta da direção era muito rebaixada e eles a tratavam como a melhor possibilidade. Eu logo pedi para falar e demonstrei que estava indignada, e disse que precisávamos honrar quem estava em greve junto com a gente. Virei oposição à direção do sindicato e me aproximei da Conlutas. Há 10 meses, sou filiada ao PSTU que, na minha opinião, é o partido que abriga as vanguardas dos movimentos sociais.

Como foi e está sendo a resposta das pessoas com relação ao vídeo?

Tem sido demais! É inacreditável. Em todos os lugares as pessoas têm reconhecido e dado apoio. Já dei até autógrafo (risos), na primeira vez eu duvidei, perguntei se a pessoa estava brincando, mas ela respondeu que queria mesmo. Eu fiquei muito sem graça. As pessoas precisam de uma referência e acabaram encontrando por causa do vídeo.

Existe uma preocupação muito grande da sua parte com relação a essa responsabilidade de ser referência, não é?

Sim, muita! Eu sempre digo para as pessoas que eu não sou uma heroína e nem cabe a mim o rótulo de celebridade. Eu sou uma professora como muitas outras. Não existe, para a classe trabalhadora, nenhuma heroína que não seja a própria classe trabalhadora. O que eu posso fazer, estou fazendo, que é cumprir o papel de animar e instigar as pessoas para se organizarem para a luta, construir manifestações e greves. A partir disso, as transformações podem ocorrer, e não através somente de mim, ou da minha imagem, do vídeo. Eu acho que as pessoas estão entendendo isso, elas me vêem como um símbolo dessa luta, eu não acho isso ruim. Tenho me esforçado muito para atender aos convites que surgem.

Você acha que a opinião pública mudou depois que muitas pessoas passaram a concordar com as reivindicações trazidas por você?

Eu acho que está mudando um pouco. No RN, muitas pessoas que nunca entraram em greve, estão entrando. No congresso do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (SEPE) do Rio de Janeiro, muitas pessoas diziam que queriam tirar foto comigo para mostrar para os colegas que nunca entraram em greve, para incentivá-los. Eu dizia para levar a foto e o meu convite para a luta. Outra questão é que eu não tenho exatamente a postura que foi atribuída aos sindicalistas historicamente. A própria linguagem, as pessoas dizem que eu não falo “sindicalês”. Eu tenho uma imagem um pouco diferente do rótulo que foi criado para os sindicalistas. Eu realmente sou muito calma, mas isso não faz de mim uma pessoa passiva. Tenho clareza de que só através da luta conquistamos os direitos.

Como o movimento da greve no RN recebeu essa sua fama?

Eles estão me considerando uma liderança, uma referência. Nas escolas onde eu trabalho estou recebendo muito apoio e incentivo para fazer as viagens que venho fazendo. A partir dessa repercussão, abriu-se o debate sobre educação nacionalmente. As discussões sobre 10% do PIB para a educação, por exemplo, estão sendo feitas. É uma oportunidade para debatermos e, se sou eu o símbolo, é uma obrigação minha fazer isso, é meu dever. Enquanto esses canais de diálogo com a população estiverem abertos, eu não vou medir esforços para continuar dialogando.

Quais foram as conseqüências praticas do vídeo? Houve alguma resposta prática?

Em termos de adesão à greve, foi muito positivo. Houve uma nova visão sobre a greve, um novo olhar. Como os professores sempre carregaram esse rótulo de “cuidadores”, muitas pessoas da categoria tinham medo de entrar em greve, diziam que prejudicariam os alunos. E agora eles estão começando a enxergar que a greve é um instrumento de luta e um veículo de divulgação do caos que existe nas escolas. E os responsáveis por esse caos não somos nós. Quem maneja recursos públicos são os governos, eles são os responsáveis. Esse novo olhar é um ganho muito grande. Mas, em termos de negociação, não conseguimos nada.

Qual foi o resultado da greve?

Mesmo com o crescimento de 8 bilhões da receita do estado do RN, o governo disse que não pode oferecer reajuste. Nossa greve acabou por determinação judicial. Recebemos ameaça de corte de ponto, exoneração e multa de até 500 mil reais para o sindicato. A categoria se sentiu ameaçada com o corte de um salário que já é precário. Isso aconteceu também na Paraíba, infelizmente. A única coisa que conseguimos foi o cumprimento do piso salarial nacional, nada além disso. Depois que houve o julgamento de ilegalidade da greve, ainda continuamos por mais uma semana, o que consideramos uma vitória. Foi a primeira vez que uma greve continuou mesmo depois de uma determinação judicial. Aos poucos a categoria vai avançando na consciência e percebendo que o poder judiciário não está ao lado dos trabalhadores.

O que você tem a dizer para as pessoas que falam que a luta dos professores é apenas por salários e que o salário não é tão baixo quanto de outras categorias?

O fato é que as pessoas debatem educação sem qualquer propriedade. Os próprios gestores falam sobre educação com base em números e relatórios de avaliações, e não a partir da realidade, do chão da escola. O custo de vida no sudeste é mais alto que o do nordeste, mas a jornada de trabalho no nordeste é muito mais alta. Precisamos levar em consideração o cotidiano da escola, então, quem fala esse tipo de coisa – e falo isso sem nenhuma arrogância – não tem conhecimento sobre isso. Se parte daí, a análise da pessoa, então, não temos como debater. Não se pode nivelar por baixo. E se as outras categorias também estão insatisfeitas, eu queria que elas entrassem na luta com a gente. O piso dos jornalistas do RN, por exemplo, é de 950 reais, é muito baixo. O ideal seria que eles pudessem lutar junto com a gente. E eu lutaria por eles, como luto por qualquer categoria.

Você chegou a ser criticada por ir ao Faustão?

Surgiram algumas críticas, mas as pessoas tem me defendido muito. Algumas pessoas disseram até mentiras, que eu li um texto que foi escrito pela produção do programa. Eu nem sei decorar texto! Quando recebi o convite, fiquei em dúvida se deveria ir ou não. Mas o que está em debate não sou eu, é o que essa exposição pode causar. E o resultado que tivemos foi uma plateia cheia aplaudindo as greves do Brasil na mesma emissora que critica as greves. É uma emissora que sempre boicota as nossas causas e, se o espaço está aberto agora, vamos aproveitar.

Por que você acha que o vídeo fez tanto sucesso?

Uma série de fatores levaram ao sucesso do vídeo. Acho que uma delas foi que ele se passou numa audiência pública e eu me dirigi diretamente à secretária de educação e aos deputados, que são figuras que as pessoas temem. Ao fato de ter sido veiculado pelo canal oficial da Assembleia Legislativa ao vivo, sem possibilidade de edição. E à internet, que facilitou a divulgação. Mas não houve esforço do PSTU, as pessoas do partido ficaram sabendo do vídeo depois que já tinha muitos acessos e comentários.

Você pretende se candidatar a algum cargo político nas próximas eleições?

Isso vem sendo muito discutido no RN. E há dois pólos pra essa discussão. Um deles se utiliza disso para dizer que somos oportunistas. O outro lado é o público, as pessoas me parando na rua e dizendo “você tem que se candidatar, eu voto em você, faço campanha”. Mas o fato é que esse debate nunca aconteceu dentro do partido. Primeiro porque quase ninguém sabia que eu era do PSTU. As questões relacionadas a candidaturas dentro do partido são discutidas de maneira absolutamente horizontal. São levados em consideração diversos critérios e não estou sendo tratada com privilégios por causa do sucesso do vídeo. Além disso, não priorizamos eleições, não somos um partido eleitoreiro. Nosso principal objetivo é organizar os movimentos sociais. É natural que eu leve comigo o nome do partido e vice-versa, até porque, eu tenho orgulho de ser do PSTU. Se for necessária a minha candidatura, estou à disposição. Mas ainda fico um pouco assustada e nem tive muito tempo de refletir sobre isso. Agora que estou tendo a dimensão disso tudo, é meio assustador, mas não há pressão nenhuma por parte do partido. E temos muita coisa para dar conta, então não temos posição sobre isso ainda.

Muita gente ficou curiosa para saber que é cuscuz alegado (risos)

(Risos) Isso é uma coisa que a gente tem muito o costume de dizer no RN. Porque, nas escolas, os professores não podem ter acesso à merenda, porque pela lei, ela é para o aluno. E o fato de o professor se alimentar com a merenda escolar é considerado desvio da merenda. E a promotora do RN se ocupa muito com essa questão, fiscaliza periodicamente. Com outras coisas ela não se ocupa, como, por exemplo, o nosso Plano de Carreira e Salários. Então, eu sempre digo: além de toda a dificuldade que a gente passa, até esse cuscuz que a gente come tem que ser alegado? Alegado no sentido de justificado mesmo. E nós alegamos que temos que comer sim, porque não temos tempo e nem dinheiro para fazer as refeições fora da escola.

Qual a sua opinião sobre o piso salarial nacional para professores?

Esse piso estabelecido não nos contempla, porque proporcionalmente, ganhamos pouco para um jornada de 40 horas. Mas, entendemos que se ele for implementado agora, não deixa de ser um avanço, principalmente para as cidades de interior. O salário de um professor no Piauí é de 500 reais. Então, seria um avanço se não fosse considerado a vitória em si. A questão salarial está diretamente ligada à qualidade do ensino porque, hoje, embora seja garantido por lei, o professor não consegue licença para fazer cursos, mestrado etc. Falam em criar acervos em biblioteca, mas não adianta, porque o professor não tem tempo de ler.

O que você pensa sobre as verbas para a educação no Brasil hoje?

Não há como discutir qualquer coisa referente à educação se não discutirmos investimento. Porque ele interfere diretamente em tudo, seja na questão salarial – porque quem ganha bem não precisa dar aula em três horários -, seja na oferta de vagas, na não-superlotação das salas de aula, novas ferramentas pedagógicas, realização de projetos de inclusão, atendimentos especiais, como psicólogos e assistentes sociais, enfim. Muita gente diz que não adianta aumentar o investimento porque metade do dinheiro fica pelo meio do caminho. Mas se formos esperar a corrupção acabar para aumentar o investimento, é melhor desistirmos logo.

No Plano Nacional de Educação (PNE) que foi elaborado no governo FHC, no outro decênio, e foi implementado pelo governo Lula, as metas não foram alcançadas, inclusive o investimento de 5% do PIB para a educação. Lula investiu menos de 3%. A proposta do atual PNE é que partamos desses 3% com a perspectiva de chegarmos aos 7%, mas sem qualquer garantia de que isso vai ser feito e nem de onde esse dinheiro vai sair. Não se fala em auditoria e nem em suspensão do pagamento da dívida pública. No último ano, 44% da receita brasileira foi para o pagamento da dívida. Não podemos esperar que esse dinheiro venha do pré-sal, depois de ser dividido para todas as multinacionais, e sobre quase nada para a educação. As metas são muito vagas e distantes. Por isso defendemos que o investimento seja de 10% imediatamente!

Como você avalia o cotidiano da escola, as terceirizações etc?

Essa questão da terceirização, infelizmente, é uma realidade. No RN, praticamente todos os funcionários de limpeza, merenda etc. são terceirizados. Há muito tempo não se realiza concurso, o objetivo é terceirizar tudo. Nós fazemos cota para café e açúcar para os professores, somos obrigados a economizar em material, em comida. Às vezes os professores precisam desistir de realizar atividades por falta de material, alguns compram do próprio bolso.

Há pouco tempo você recusou um prêmio do Pensamento Nacional das Bases Empresariais – PNBE e enviou uma carta a eles. Fale sobre isso.

Enviei uma carta e eles responderam dizendo que estavam surpresos com a minha reação. Eu estava numa correria muito grande e não sabia exatamente do que se tratava o prêmio. Tive que pesquisar bastante para chegar a essa conclusão e àquela redação, e demorei para dar a resposta. Eles responderam dizendo que “nossa luta é a mesma”. Se estou diariamente me posicionando contra os empresários da educação, como posso aceitar uma premiação desse tipo? Havia um interesse publicitário, talvez, da parte deles. Eles estavam querendo explorar a minha imagem devido ao sucesso do vídeo, que até FHC postou no site dele (risos). Teve um setor da esquerda que, pelo fato de eu ter ido ao Faustão, estava achando que eu estava preocupada em dar visibilidade ao partido. Então, depois de recusar esse prêmio, as pessoas viram de que lado estou na luta de classes.


Obs.: A professora Amanda Gurgel é uma das ilustres leitoras da Vírus Planetário , cuja 12ª edição será financiada pelo Catarse. O Catarse é uma nova forma de financiamento colaborativo (crowdfunding). Clique aqui - http://catarse.me/pt/projects/351-revista-virus-planetario-n-12 - para ver o vídeo de apresentação da revista com depoimentos de apoios como o de Amanda e doar qualquer valor a partir de R$10 para contribuir com a impressão da próxima edição da Vírus, que será especial sobre a Utopia.

29 de agosto de 2011

Vídeo: Entrevista ao programa Frente a Frente, da Rede Vida

Olá pessoal, estou divulgando o vídeo resumido da entrevista que dei ao programa Frente a Frente, da Rede Vida, no último dia 24, em Brasília. Quem não assistiu, pode ver agora. Abraços a tod@s.

28 de agosto de 2011

Deu na Imprensa: O Ministro e a Professora

Olá gente! Abaixo posto um artigo meu que foi publicado ontem, dia 27, no Diário de Natal. Abraço a tod@s.

No dia 12, o ministro Fernando Haddad esteve em São Bernardo do Campo, em disputa pela prefeitura de São Paulo. Ele e Lula foram abordados por estudantes e professores, em campanha pelos 10%. Mas a recepção maior veio das crianças, que lotaram o auditório para ouvir histórias contadas pelos dois. 

Nada disso me impressionou. Mas me chamou a atenção uma das histórias escolhidas pelo ministro, a do livro “A Professora Encantadora”. Haddad lendo um livro sobre uma professora... Sou curiosa. Fui atrás, até conseguir o livro (que, aliás, recomendo).

O texto é a homenagem do autor, Márcio Vassalo, a uma de suas professoras, que despertou nele a paixão pelo texto, a descoberta da leitura e da escrita. A professora Maísa encantava seus alunos, e os levava para outro universo, de sonho e fantasia. Transformava a sala de aula em uma experiência única – chegando a colocar na porta uma placa: “Não interrompa, estamos suspirando”.

O livro é uma bela homenagem aos professores. Valoriza aquilo que cada uma de nós levamos conosco, o que nos fez escolher a profissão. E que nos faz atravessar a cidade de uma escola a outra, para começar a oitava aula como se o dia estivesse começando.

Me perdoe, Haddad, mas um livro desses não poderia jamais estar sendo lido para as crianças pelo Ministro da Educação. Não combina. Um governo que investe menos de 3% do Orçamento na educação não pode homenagear o professor. Só se for como mártires... 

O livro tem um trecho muito bonito, sobre a professora e perguntas “que desdobram a gente por dentro”. Eu também tenho uma pergunta que me desdobra por dentro, desde que soube da leitura: ministro, você acha mesmo que não tem nenhuma responsabilidade no caos da educação? Claro que tem, Haddad. Se você quisesse, poderia mudar, junto com Dilma, o investimento em educação pública para 10% do PIB já, ao invés de 7% para 2020, como prevê o novo PNE do governo.

Soube depois que o ministro só leu um trecho do livro. Tanto faz. Na verdade, quando os governantes nos fazem esse tipo de homenagem, elogiam nossa vocação e persistência, desconfie. Com a homenagem, está a ideia de que vocação é suficiente. Basta a vontade, desejo, paixão, talento, para superar todos os desafios e conquistar os alunos, transmitir o conhecimento necessário para que transformem suas vidas.

Quando o ministro nos elogia, parece dizer que isso é o bastante. Como se talento fosse capaz de superar todas as dificuldades. Para que falar de coisas chatas, como salário, verbas, condições de trabalho, biblioteca? Para que se preocupar se as professoras saberão passar por cima disso tudo com superpoderes?

É preciso todo o cuidado com esse discurso fácil. Levado ao extremo, ele vira frases como a do governador do Ceará: “Quem quer dar aula faz isso por gosto, e não pelo salário”. Ou seja, é a ideia de que professoras conseguirão continuar encantadoras, mesmo trabalhando apenas por amor. 

Infelizmente, não é o que tem acontecido por aí. Por culpa dos governantes e, é sempre bom lembrar, de seus ministros.

17 de agosto de 2011

Deu na Imprensa: Professora que virou “hit” na web volta ao trabalho e diz que nada foi resolvido

Amanda Gurgel retomou rotina de aulas após greve e criticou postura dos deputados

Quatro meses após virar hit na web por causa de um vídeo em que critica o descaso com a educação no Brasil, a professora Amanda Gurgel voltou à sala de aula, em escola no Rio Grande do Norte. O fim da greve dos professores no Estado, que durou pouco mais de 80 dias, colocou a docente novamente na rotina exaustante da profissão. Apesar de ter ficado famosa e falado em jornais e TVs sobre o problema, ela admite que ao fim da greve tudo “continua do mesmo jeito”.

Amanda Gurgel conversou com o R7 para contar como foi retornar à escola depois de ficar conhecida no país. Ela avaliou o período em que representou uma das áreas que mais sofrem com falta de investimento do governo.

- Pessoas do Brasil inteiro foram sensíveis o suficiente para compreender o caos em que a educação se encontra. Inclusive viram que o problema da educação tinha uma identidade que era eu. Elas estavam me reconhecendo dessa forma. Apesar disso, nada na educação do Rio Grande do Norte mudou. Fizemos uma greve de mais de 80 dias e saímos da paralisação com a mesma proposta que a gente recebeu no começo. A proposta foi mantida até o final, um aumento que não passa do piso nacional.

Assim como antes do início da paralisação e da explosão de visualizações do seu vídeo na internet, a professora acorda todos os dias às 5h da manhã e pega três ônibus antes de chegar à Escola Estadual Myriam Coeli, na capital Natal, onde é responsável pelas aulas de português de 250 alunos dos 2º e 3º anos do ensino médio. O trabalho só termina às 17h30 depois de cuidar de aproximadamente 400 alunos que passam pelo laboratório de informática da Escola Municipal Professor Amadeu Araújo, onde cumpre expediente no período da tarde.

- As pessoas com quem eu convivo, que são meus colegas de trabalho, estão orgulhosas pelo fato de ter uma colega deles falando sobre a rotina dos professores nacionalmente e sendo reconhecida e respeitada por isso. Já os alunos ficam vaidosos por terem uma professora famosa, como eles dizem. Tenho conversado com eles e trabalhado bastante para que não vejam desta forma.

Apesar de seu esforço, ela ainda é vista como celebridade por boa parte de seus conterrâneos. A professora ainda precisa interromper a entrevista com a reportagem para tirar foto com “fãs” que a parabenizam pela sua atitude, característica que Amanda ainda exercita quando argumenta sobre a realidade nas escolas

- Na verdade, os problemas continuam iguais. Os meus alunos não tiveram professores de português no ano passado. Eles estão com conteúdo defasado na disciplina e por mais que eu queira, por mais que eu me esforce, não vou conseguir trabalhar a matéria de dois anos em apenas um [ano letivo]. Não tenho condições. Eles sabem de tudo isso. Tenho me empenhado, mas não está fácil. Eles estão super-indisciplinados no que se refere a ritmo de estudo e leitura, porque, como passaram um ano sem professor, perderam esse hábito. Tenho tentado manter a tranquilidade, principalmente por causa da concepção de que eu não sou responsável por este prejuízo.

Mas, em pelo menos um ponto, Amanda Gurgel acredita que a divulgação do seu vídeo ajudou. Após milhares de visualizações, a greve ganhou mais força e o governo de Rosalba Ciarlini (DEM) foi prejudicado.

- A governadora [Rosalba Ciarlini] sabe de tudo isso [falta de professor nas escolas]. Mas não toma providência porque o que importa é que os alunos estejam nas escolas. É um depósito de alunos. A avaliação que a gente faz é que, se não fosse o vídeo, as retaliações do governo [contra a greve] teriam vindo antes. E, por esta repercussão nacional, o governo de Rosalba acabou sofrendo um desgaste especial. A maior vitória da nossa greve é que o governo do Rio Grande do Norte está praticamente falido.

Política

O sucesso do vídeo também proporcionou a Amanda uma visita ao Congresso Nacional. Ela tentou pedir a palavra em uma reunião da Comissão de Educação e Cultura, na qual estava presente o ministro da Educação, Fernando Haddad. Queria reivindicar o investimento de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) na educação do país. Mas não conseguiu falar por questões regimentais.

- Tentei falar lá [na Câmara dos Deputados], mas não foi possível. Vi que os discursos eram pautados na questão da possibilidade, não no que é necessário. Achei um absurdo. Mas serviu para vermos aquilo que já sabemos. Os nossos deputados estão pouco se lixando para a educação. As impossibilidades e limitações são feitas por eles mesmos.

Apesar de ser filiada no PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados) há nove meses, portanto antes de ficar famosa, a professora diz estar em dúvida sobre a possibilidade de se candidatar a algum cargo público em 2012, quando haverá eleições para prefeito e vereador. Diariamente, pessoas que encontram com Amanda no trajeto até o trabalho pedem para que a professora se candidate.

- Eu também tenho pensando particularmente sobre essa questão porque não sei se é isso o que eu quero. Para mim, internamente, se for isso, eu vou encarar. As pessoas têm falado isso no ônibus, no ponto de ônibus, nas redes sociais. Elas falam de tudo: prefeita, senadora, presidenta, vereadora. O concreto é que teremos eleição para vereador e prefeito.

 
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